A monstruosidade de Tucuruí

Mergulhe no enigma de “A monstruosidade de Tucuruí: Consciência vs. Inconsciência”, um conto que tece uma narrativa densa e cativante em torno dos mistérios que se escondem nas sombras de Tucuruí. Neste intrigante relato, exploramos a fina linha que separa a realidade da fantasia, a consciência do que jaz além dela. Envolvente do início ao fim, este conto promete desafiar suas percepções e arrastá-lo para um mundo onde o inexplicável e o racional entrelaçam-se em uma dança sinistra. Prepare-se para uma leitura que não só captura a essência de Tucuruí, mas também mergulha profundamente na eterna batalha entre a luz e a escuridão dentro de nós. Sem mais delongas, vamos ao conto!

A monstruosidade de Tucuruí: Consciência vs. Inconsciência

Dedicado a Hertes M. Farias

— A menina correu o que pôde, mas seus pés ensanguentados, suas pernas trêmulas e seus pulmões obstruídos levaram-na ao chão. Antes de entrar em estado de choque, seus espasmos multiplicaram ao sentir a presença de seu predador. De repente, ela ouviu uma canção relaxante e sentiu todo o peso do mundo em seus ombros. E seus olhos, a pestanejarem-se calmos, aquém da transcendência de uma parte de si, até então desconhecida por sua visão de mundo, desvaneceram lentamente, como no espaço de tempo em que o espírito se desprende do corpo e vagueia pela confusão dos sonhos. Logo, lentamente, seu ser esfumaçou-se e, creio eu, foi ter com Deus. — disse o jovem bêbado.

A Sombra da Noite em Tucuruí: Entre Mitos e Realidades

Ao cair da tarde, a rua paralela ao Rio Tocantins, próximo ao cais da cidade de Tucuruí, no Pará, tornava-se vazia às pressas. Portas e janelas fechadas, trancadas e untadas com água benta, ditavam o ritual do ocaso. Homens, mulheres, idosos e crianças se ajoelhavam em círculo, tendo ao meio uma vela acesa e uma cabeça de peixe.

Apenas um jovem bêbado, triste a cambalear pela rua ribeirinha, acompanhou a cena monstruosa. Encorajado pela cachaça barata e as moedas prometidas, narrou — de olhos fechados, para não se esquecer dos detalhes — o caso da menina do cais:

— Enquanto a sombra da noite envolvia a cidade, um vulto camuflado entre as brumas noturnas, de formas monstruosas e opacas, ajoelhou-se sobre o corpo da moça paralisada e… acreditem, começou a murmurar uma canção de ninar! — disse o ébrio contador de histórias, antes de abrir os olhos para reclamar as moedas.

Alguns forasteiros, trabalhadores da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, insultavam o rapazinho bêbado: “Mentiroso descarado”. Riam suas gargalhadas debochadas e cuspiam o nojo e o ódio na velha colcha de retalhos daquele que, para eles, não passava de um ficcionista movido a álcool. O moço bêbado, indiferente aos julgamentos, sorria afável e repetia em silêncio: “o corajoso enfrenta o inevitável, mas o covarde se deixa alienar pelo medo. Daí o riso fácil, eles mal conseguem enfrentar o espelho. Pobres diabos!”. Porém, conhecedores das lendas, os ribeirinhos da cidade não ousavam zombar do jovem morador das calçadas.

Os olhares pelas frestas das janelas eram evitados a todo custo, bem como os cânticos ou ruídos que pudessem vibrar as paredes de tábuas. Depois do crepúsculo, restava o silêncio. Ribeirinhos atentos: mãos aos ouvidos, respiração lenta, olhos fechados e a esperança do dia seguinte, da manhã libertadora, dos raios do sol refletidos nas águas do rio, a anunciar o espetáculo da vida e a possível sacies do pescador de almas.

A Monstruosidade de Tucuruí - Contos de Urzeda - 1
A Monstruosidade de Tucuruí – Contos de Urzeda – 1

Assim como eu, Sarah era nova na cidade. Mudou-se para Vila Permanente — uma vila projetada para os funcionários da hidrelétrica da cidade — e matriculou-se na escola da vila. A princípio, tímida, tardou em fazer amigos. Um dia, na saída da escola, estávamos conversando sobre um assunto delicado próximo ao portão. Ao passar por nós, Sarah notou que o assunto era a lenda do lago da usina.

Ela diminuiu o passo e logo parou. Fitou-me demoradamente. Percebi, mas dissimulei um despiste. Ela olhou para os outros garotos da turma e percebeu o incômodo geral relacionado ao tema da conversa: a maioria tinha o olhar disperso, mas os ouvidos atentos, como alguém preparado para fugir ao mínimo alerta de perigo. Realmente era assim que viviam os ribeirinhos da cidade. Ser arisco era questão de sobrevivência.

— O que é o mito do lago da usina? — perguntou Sarah, surpreendendo-nos de tal modo que nos deixou ainda mais em estado de alerta.

— Não é um mito, é uma lenda! — disse Pedro, o professor de História, ao sair pelo portão da escola e agarrar a mão de sua filha, Lívia. — Venha comigo, anda!

Os outros alunos baixaram as cabeças, inclusive eu, e nos dispersamos sem protestos nem despedidas. Sarah veio em minha direção, segurou em meu braço e me puxou para um canto próximo ao portão. Surpreso com o atrevimento, baixei os olhos à mão dela, que continuava a me segurar firme. Ela não me soltou, pelo contrário: apertou-me o braço com mais força.

— Espere, por favor! — disse, tentando forçar um sorriso. — Preciso de sua ajuda. Você é o Fantasminha, não é?!

Diante do encantamento por Sarah, relaxei os ombros. Percebi uma leveza em meus músculos e uma serenidade na alma que há muito não sentia. Pensei ser graças ao olhar misterioso da novata da classe. As coisas misteriosas sempre me fizeram bem. No entanto, estranhei o fato de ela saber meu apelido dos tempos de criança em Hidrolândia. Mas como eu mesmo assino “Fantasminha” nos meus cadernos e deveres de casa, meu estranhamento se tornou irrelevante. “Talvez, ela tenha lido meu apelido por aí. Coisas do acaso”, pensei. Nunca fui um tipo tão popular entre as meninas, embora despertasse a curiosidade delas. Quiçá por eu ser um menino estranho, digamos, exótico.

— Sim, sou o Fantasminha, muito prazer!

Demo-nos as mãos e, impulsivamente, beijei-lhe o rosto. O perfume de Sarah inundou-me a alma. A brisa vespertina vinda das comportas da usina, misturada aos aromas adocicados do rosto da menina, deixou em meus lábios um orvalho aromático e apaixonante.

— Você disse que precisa de ajuda, mas ajuda em quê? — perguntei, tentando dissimular uma tranquilidade quase inexistente.

— Sabe o que é? — Sara fez uma pequena pausa e olhou para baixo. — Não sei se você percebeu, mas me sento ao lado de Lívia. Durante estes três dias, que fui sua colega de mesa, notei que ela nunca presta atenção nas aulas. Além disso, ela tem o costume de ficar rabiscando o caderno com os dizeres: “o mito do lago da usina”. Até aí, tudo bem! Mas hoje a vi com um estilete desenhando uma figura monstruosa na mesa.

Aproximei-me e perguntei o que era. Levei um susto quando ela se virou: Lívia tinha os olhos esbranquiçados, vazios. Pensei que ela estava brincando de virar os olhos, mas vi que a coisa era mais séria quando ela olhou para mim e pareceu não me enxergar, como se eu fosse transparente, sabe?! Logo, ela balançou a cabeça e seus olhos voltaram ao normal. Mas notei que a respiração dela ainda estava muito acelerada e gradualmente foi ficando ofegante. Ela parecia confusa: como as pessoas recém-saídas de um transe. Poxa! Fiquei com medo e me afastei um pouco.

Sarah me contava o ocorrido enquanto caminhávamos em direção ao centro comercial da vila. Eu olhava para o chão, procurava evitar o olhar indagador da garota.

— Então, Fantasminha — continuou Sarah —, quando saí pelo portão, ouvi vocês mencionarem algo sobre o mito do lago. O que é o mito do lago da usina? Por favor, eu preciso saber. Confesso que estou com medo e penso até em contar aos meus pais para que eles venham à escola. Talvez eles consigam descobrir o que está acontecendo aqui.

— Não, não faça isso! Melhor que ninguém saiba de nada! — disse, levantando rápido a cabeça para encará-la.

— Então me conte, eu tenho de saber! — disse Sarah, e logo parou em minha frente, pegou minhas mãos e as acariciou. Eu, sentindo o peso dos próprios braços, assenti.

— Tá! Mas prometa que isso ficará só entre a gente. — eu disse, ainda meio relutante em ceder ao apelo daquela menina encantadora.

— Claro, pode confiar! — disse ela, e continuamos de mãos dadas pela calçada.

Nós já estávamos próximo ao supermercado da vila quando vimos o professor Pedro saindo sozinho pela porta principal. Ele portava algumas sacolas. Tinha a cabeça levemente inclinada para o chão e olhava insistentemente para os lados. Paramos entre duas árvores e avistamos o professor entrando em seu carro. Depois de dar marcha à ré, com a velocidade incomum para um estacionamento, ele saiu a cantar pneus e passou muito próximo aos nossos pés. Olhamos para dentro do carro e vimos Lívia. Ela estava com a cabeça escorada na janela dianteira do passageiro, com as mãos nos ouvidos e os olhos fechados.

— Meu Deus! Temos de ajudá-la! — disse Sarah, já me puxando pela mão. — Onde ela mora? Você tem de me dizer!

Tive o mesmo sentimento de compaixão de Sarah. Mas ao sentir meu gesto instintivo e brusco, livrando-me das mãos dela e inclinando-me levemente para trás, percebi meu temor de seguir adiante, por todo o perigo que isso poderia representar. Não só para mim, mas para ela também, que ainda desconhecia os pormenores da lenda. Sarah, percebendo que eu tentaria dissuadi-la, pressionou-me contra uma das árvores e, com o dedo indicador, tapou-me os lábios, impedindo-me de falar.

— Você tem de me levar à casa de Lívia. Ela não está bem, e você sabe disso! Não é hora de ser um bundão, um covarde! Dito isso, Sarah puxou bastante ar e fechou os olhos. Depois de exalar todo o ar lentamente e algo melancólica, acariciou-me o rosto por um momento e beijou-me. Eu, ainda com os olhos abertos, comecei a tremer, mas logo me deixei levar e fechei os olhos devagar.

***

Caminhamos pela Rua Minas Gerais e logo chegamos à Rua Chile. Enquanto andávamos de mãos dadas, eu pensava no beijo e em uma futura repetição; e Sarah, pela fisionomia assustada e olhar distante, certamente teria os pensamentos voltados aos olhos assombrosos de nossa colega de classe. Ela dava ritmo à caminhada. Eu me sentia levado, como num passo de valsa, por uma dessas dançarinas que parecem ter plumas nos pés e um aperto de mão leve e afável.

Ao chegarmos à Rua Canadá, apertei a mão de Sarah e fiz um movimento brusco. Paramos. Olhei para os lados. Não sabia ao certo qual direção seguir. Eu só havia ido à casa de Lívia uma vez: ao acompanhá-la com uns amigos depois de uma matinê no clube da vila. As casas da vila eram projetadas para separar seus moradores por classes sociais. A região da casa dos professores era a mesma destinada a operários da hidrelétrica, com as casas todas iguais, feitas de tábuas e bastante acanhadas.

Com dificuldades em identificar a casa de Lívia, atravessei a rua para contemplar melhor as nuances das casas. Feito isso, lembrei-me onde ela morava: ao avistar uma casa que me era familiar. Era a casa de Hertes, antigo vizinho e ex-namorado de Lívia. Ele (como toda sua família) havia desaparecido da cidade sem deixar rastros, ninguém jamais soube informar algo a respeito do paradeiro da família Jung.

— É aquela casa ali! — eu disse quase gaguejando e fiz gestos imprecisos. Toda aquela história estava descompassando minhas emoções. Eu já nem sabia como realmente me sentia.

— Tudo bem, vamos até lá! — Sarah arrastou-me pelo braço, e demos a volta para entrar pelos fundos do quintal.

Pulamos uma cerca de madeiras pontiagudas e invadimos o terreno. Caminhamos abaixados junto à parede e procuramos o quarto de Lívia. Quando avistamos a garagem e não vimos o carro do professor, a tensão pareceu diminuir um pouco, mas logo voltou a aumentar ao ouvirmos um choro pesaroso, seguido de soluços. Sarah quis olhar pela janela, mas antes pus a mão em seu ombro e disse baixinho:

— Tenha cuidado, Sarah, não sabemos o que ou quem está lá dentro.

Sarah arregalou os olhos, voltou os ombros para trás e disse:

— Como assim o quê? Esse choro só pode ser o de Lívia. Não é o quê, senão quem: é uma pessoa, é a Lívia.

— Não é bem assim! — respondi. — Sabe o mito do lago da usina?! Pois é, tem a ver com a Lívia e o pai dela.

Sarah mordeu os lábios e olhou para baixo. Logo, ela me agarrou pela camiseta e arrastou-me pelo quintal. Entramos debaixo de uma casinha de madeira em um dos cantos do jardim. A casinha, velha e abandonada, era suportada por quatro vigas de madeira, tendo de um lado um escorregador vermelho, desbotado pelo tempo, e do outro, uma escadinha com os dois primeiros degraus quebrados.

— O que é o mito do lago? Vamos, conte-me tudo! — disse ela impaciente.

— Não é um mito. Segundo o professor, é uma lenda: uma narrativa transmitida oralmente pelas pessoas para explicar acontecimentos sobrenaturais.

— Tudo bem, mas dá pra ser menos nerd comigo? Não precisa agora me explicar a etimologia da palavra. Quero saber sobre a lenda, do que se trata essa tal lenda do lago.

Atento à impaciência de Sarah e preocupado com a escolha das palavras para não a assustar ainda mais, continuei:

— Bem, segundo a lenda, durante a formação do lago para construção da usina, famílias inteiras de ribeirinhos, além de algumas tribos que habitavam a região, foram expulsas do local sem qualquer indenização ou projeto que lhes compensasse a brusca mudança de vida. Depois de muitos conflitos com a polícia, e o sumiço de muitos pais de família e guerreiros indígenas, as famílias e as tribos resolveram deixar a região. Somente um velho pajé ficou no local para adverti-los da guardiã do Rio Tocantins: Maramou. Ela costumava afogar os homens que não respeitavam o rio ou mandava seu cão-das-águas para capturá-los e aprisioná-los o ser.

— Espera aí, calma lá! Aprisionar o ser… o que isso significa? — perguntou-me Sarah, tentando entender os absurdos narrados.

— Como disse o próprio professor Pedro — fiz uma pequena pausa, a fim de formular melhor as ideias para simplificar a narrativa da lenda —, o cão-das-águas aprisiona a consciência do homem, deixando-o viver apenas com as pulsões do inconsciente. Isso significa que o homem atacado perde a razão, ou seja, ele perde as experiências que percebia por meio da razão, além das lembranças e das ações intencionais. Sua percepção de mundo, a partir daí, depende das forças do inconsciente. Sendo assim, o novo homem é regido pelo instinto de vida, que se refere à autopreservação, e pelo instinto de morte, o qual é uma força destrutiva, que pode ser dirigida para dentro.

Notei que Sarah buscava entender: ela tinha o olhar distante e brincava com as tranças de seu cabelo, enrolando-as nos dedos e passando-as nos lábios. Percebi que eu teria de ser mais claro. Tomei fôlego e continuei:

— Eu não sou tão nerd assim para assimilar tudo isso e logo explicá-lo. O que fiz foi decorar tudo o que ouvi por aí desde que cheguei à cidade. Também, durante os encontros que tivemos para fazer um trabalho em grupo depois da aula do professor Pedro sobre a bendita lenda do lago. Gravamos a aula em vídeo e a transcrevemos durante as reuniões. Logo li e reli umas trezentas mil vezes. Por isso tenho tudo decorado.

Se você ainda não entendeu, tenho um exemplo que talvez facilite seu entendimento: sabe os loucos… ou os bêbados, que de tão bêbados parecem loucos? Pois é: não os entendemos porque eles são ou estão, temporariamente, regidos pelo inconsciente: eles dizem coisas e agem conforme as pulsões do inconsciente. Mas como interpretamos as coisas que eles dizem ou fazem a partir de nosso consciente, tudo dito ou feito por eles não têm o menor sentido para nós, porque não estamos conectados no mesmo canal de comunicação.

— Tá bom! Essa parte já peguei, mas… o que tem isso a ver com o mito, ou melhor, com a lenda do lago da usina?

Neste momento, nossos corações batiam em uníssono, refletindo não apenas a ansiedade pelo desconhecido, mas também a inevitável jornada rumo ao entendimento profundo de nós mesmos. À medida que a noite se aproximava em Tucuruí, com seu manto de mistérios e sombras, um novo capítulo se desdobrava diante de nós, não apenas revelando os segredos ocultos da cidade, mas também nos confrontando com o abismo que separa nossa consciência daquilo que jaz no profundo do inconsciente. Era chegada a hora de enfrentar as lendas que assombravam meus dias e noites.

Confronto Íntimo: A Luta Entre Consciência e Inconsciência

— Já vou chegar lá! — disse e tomei um tempo para voltar a organizar melhor as ideias. — O último remanescente das terras, onde hoje é o lago da usina, um pajé que vivia em uma pequena ilha do rio, resolveu esperar o homem branco ali, numa tentativa de salvar a pequena ilha onde estavam enterrados os restos mortais de várias gerações de sua tribo. Quando ele avistou homens chegando num barco da polícia, sorriu e acenou.

Ele tinha à mão um adorno, feito de ossos de lebre e cascos de jabuti, para presenteá-los. Ao verem o adorno, os policiais pensaram ser uma arma e o alvejaram. O velho índio caiu no lago, e por algum instante fez-se o silêncio. O barco aproximou-se do corpo a boiar na água serena, e todos cumprimentaram o atirador: “belo tiro, soldado”. Eles riram em júbilo e deram alguns tiros para o alto,  comemorando o sucesso da expedição; da retirada de todos os que molestavam as intenções do Estado.

Sarah estava imóvel, mas atenta às minuciosidades de cada palavra que eu dizia. Apesar do calor, sua pele tornou-se áspera. Os arrepios que ela sentia a fez se aconchegar junto ao meu corpo. No momento, eu mal notei ou julguei o gesto dela. Eu tinha à mente apenas a lenda, e uma vontade imensa de desfazer-me dela. Continuei:

— Durante a comemoração, a tropa se deu conta que o barco se movia estranhamente. Ficaram em silêncio e observaram as mudanças no cenário: as águas, antes tranquilas, começaram a formar ondas cada vez maiores. Os policiais largaram suas armas e seguraram firme nas laterais do barco. Passado algum tempo, as ondas começaram a invadir a embarcação e eles avistaram a formação de um redemoinho. Enquanto todos os soldados acompanhavam horrorizados o crescimento do turbilhão ameaçador, da água surgiu uma criatura e saltou para dentro do barco.

Todos os soldados ficaram imóveis como se tivessem sido hipnotizados, só conseguiam mexer os olhos ao acompanhar os movimentos lentos e controlados de Naláh, o cão-das-águas. O animal se posicionou ao centro e girou o corpo lentamente a encarar cada soldado e, veja você, começou a rosnar. Mas agora vem a parte intrigante da lenda: a melodia do rosnar do cão-das-águas era como um canto à meia voz, como o canto das canções de ninar.

— Que monstruosidade! — disse Sarah. Logo, pegou o meu braço esquerdo e o botou sobre os seus ombros. — Mas o que isso tem a ver com Lívia?

— Realmente é algo monstruoso! — respondi vagamente, pois meus pensamentos começaram a me enviar flashes da lenda do Poço Velho, em Hidrolândia, e me vi por um instante preso entre os Cadáveres de Argila e o cão-das-águas. Tive de me esforçar para voltar a atenção apenas à lenda de Tucuruí.

Logo, tomei bastante ar, juntei as mãos, entrelaçando os dedos para envolver Sarah dentro de um abraço carinhoso e continuei: — Ainda segundo a lenda, Maramou, a guardiã do rio, lançou uma maldição sobre a região do lago: todo ano ela mandaria Naláh para aprisionar o ser de dois jovens moradores de Tucuruí, logo depois do décimo quinto aniversário deles. Pela simbologia das antigas tribos do rio, essa é a idade em que o homem deixa de ser filho da terra para tentar conquistá-la. E Lívia — assim como a gente — acabou de entrar nessa fase.

Nosso grupo, o que fez o estudo da lenda, percebeu que Lívia se comportava de maneira estranha desde o seu aniversário. Tentamos conversar com ela sobre isso, mas sempre vinha o professor Pedro e nos distanciava dela; exatamente como fez hoje. Acho que ele se arrependeu de ter dado aquela aula sobre mitos e lendas. A Lívia chegou um dia a dizer para esquecermos toda aquela história maluca. Ela estava com alguns problemas em casa e a lenda não a deixava se concentrar em nada. Achamos estranho, porque antes do aniversário, ela se comportava como qualquer garota da escola, além de estar super empolgada com os novos descobrimentos sobre a lenda.

— Não creio nessa lenda boba! — disse Sarah e levantou-se depressa. — Vamos, temos de conversar com a Lívia. Quero saber por que ela anda tão estranha e se podemos ajudá-la em algo.

Caminhamos rumo à porta dos fundos. Sarah bateu à porta com cuidado e disse baixinho:

— Lívia, Lívia! Sei que você está aí. Preciso falar com você!

Não ouvimos resposta alguma. Sarah bateu com um pouco mais de força e a porta se abriu devagar, sozinha. Ouvimos apenas o ranger das presilhas enferrujadas. Ela pegou-me pela mão, e entramos na casa devagar, a calcular os passos e a observarmos tudo com muita atenção. Fomos à procura do quarto de Lívia. Reparei em cada detalhe da casa: as paredes estavam repletas de fotos do torneio de pesca de Tucuruí. Nelas todas, o professor Pedro estava de pé dentro de uma lancha pequena, tendo à mão enormes peixes.

Ao chegar ao quarto, Sarah bateu à porta só com as costas do dedo indicador. Aproximou o ouvido direito e ouviu Lívia cantando com ternura. O canto era quase um murmúrio de lamentação. Ela abriu a porta devagar e chamou por Lívia com a voz serena para não a assustar. Porém, ao entrar, Sarah viu que não era Lívia quem entonava a melodia, mas um enorme monstro, muito parecido a um cão gigantesco, coberto por uma pelagem densa. No entanto, seu crânio, liso e dourado, não se parecia à cabeça de uma cão, tinha o mesmo formato da cabeça de um tucunaré — peixe típico da região, o mesmo das fotos do professor Pedro.

Entrei em seguida e também me deparei com o monstro. A fera tinha as duas patas dianteiras sobre a cama de Lívia. Quando nos viu, cessou o cantar e nos entreolhamos em silêncio. O único que se podia ouvir era a respiração de Naláh, que, mesmo dotado de brânquias, e estas abertas e em movimento, respirava pelas narinas, exalando um ar esverdeado e nebuloso. O cão com cara de peixe olhou em nossa direção. Estávamos entorpecidos ao lado da porta do quarto.

Naláh, numa lentidão absurda, quase hipnotizante, desceu as patas dianteiras da cama de Lívia, endireitou o corpo e posicionou-se para o ataque. Surpresos, Sarah e eu percebemos uma mudança repentina de fisionomia na cara de peixe do monstro: de fúria para o espanto. Então, sentimos algo a nos atacar por trás, como um empurrão em nossas costas e fomos ao chão. O pai de Lívia havia invadido o quarto, empunhando uma escopeta. Em seguida, ouvimos o estrondo de um tiro, uma luz intensa surgiu e desmaiei.

***

Quando recobrei a consciência, não vi Lívia ou o professor Pedro. Eu estava em um quarto sem janelas, deitado no chão, com vestes militares e ao lado de uma arma. Sobre a cama, uma moça com tranças — trajando um pijama de peixinhos dourados e abraçada a um cãozinho de pelúcia — dormia tranquila. Sentindo-me zonzo, voltei a desmaiar.

Raios de sol atravessando as folhas de uma árvore: foi a primeira coisa que percebi ao despertar. Esfreguei os olhos e me vi deitado na calçada de um bar próximo à Feira Municipal de Tucuruí. O cheiro de peixe fresco, que vinha da feira, causou-me ânsias de vômito. Logo, o dono do bar veio ter comigo.

— Ei, rapazinho! Acordou, né? Cuidado com o que esse bêbado diz. Ele não bate bem das bolas: olha só pra ele, usa farda e se diz militar. Ele sempre conta a mesma história: de quando ele e seus colegas soldados foram atacados por um cão com cara de peixe. Dá pra acreditar? Um louco perdido!

Passei a mão pelos cabelos, senti uma forte dor de cabeça e meus ouvidos latejarem. Não sabia ao certo por quanto tempo adormecera e nem como fui parar ali. Tentei me levantar, mas caí diante de uma poça d’água, entre a rua e o meio-fio. Ainda me recuperando da queda, vi um jovem bêbado encarar-me de muito perto.

— Ei, você, quer ganhar uma dose de cachaça? — perguntei ao jovem bêbado.

— Claro, doutor! Mas, espera aí, o que tenho de fazer?

— Nada de mais! Só me diga seu nome!

— Cachaça barata! — pensou o rapazinho bêbado, e vendo que o nariz de seu interlocutor quase tocava o seu, disse seguro de si:

— Meu nome é Fantasminha, doutor!

Eu consegui, finalmente, pôr-me de pé. Escorei-me em uma árvore e olhei para as teias de aranha nas portas do antigo bar da Rua Getúlio Vargas. Reparei em sua volta: não havia ninguém, exceto as figuras do jovem bêbado e do dono do bar: os dois tinham a minha cara, e ambos trajavam vestes militares, aprisionados como fantasmas na água suja da poça.

Sorri aliviado. Aquele era apenas mais um domingo qualquer: dia de tomar o coquetel de pílulas para não voltar a ver o nevoeiro de minha antiga escola nem sentir as dores da terapia corretiva de meu pai. Eu estava sozinho como sempre e consciente como nunca. Porém, desejei um gole de cachaça, de inconsciência, a fim de me livrar da monstruosidade do mundo perceptível.

Eber Urzeda dos Santos

A Monstruosidade de Tucuruí: Consciência vs. Inconsciência

 Coleção: As rosas ao pé de minha janela

A Monstruosidade de Tucuruí - Eber Urzeda dos Santos
A Monstruosidade de Tucuruí – Eber Urzeda dos Santos

“O conto ‘A Monstruosidade de Tucuruí: Consciência vs. Inconsciência’ integra a série do projeto ‘Contos de Urzeda’, selecionados para compor o romance ‘As Rosas ao Pé de Minha Janela‘, de Eber Urzeda dos Santos.”

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Para aqueles que mergulharam nas páginas do conto “’A Monstruosidade de Tucuruí: Consciência vs. Inconsciência” e sentiram o chamado das palavras, há um convite a explorar mais profundamente o universo literário de Eber Urzeda dos Santos. Seu talento e paixão pela escrita se estendem além destes contos, abraçando também o mundo dos romances. Para os interessados, seus livros estão disponíveis na Amazon, cada um uma janela para novas aventuras e reflexões. Para conhecer mais sobre suas obras e se perder ainda mais em suas histórias envolventes, visite a página: Livros do autor.

Leia também a Resenha do conto “A Monstruosidade de Tucuruí: Consciência vs. Inconsciência” e descubra as nuances que me levaram a escrever este conto, e em quem ele foi inspirado!

“A Monstruosidade de Tucuruí: Consciência vs. Inconsciência” é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”.

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